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Eram 2h30 da manhã. O ingresso que ele tinha comprado era para a leva de visitantes das 2h45am. O frio era muito e ele não estava preparado para enfrentar fila na entrada. A procura por ingressos foi tamanha que o museu ficaria aberto por 72 horas para atender ao público nos últimos dias de exposição. Ainda assim, ele não imaginava que encontraria fila de madrugada.
Ele começa a pensar que em 4 dias irá voltar pra casa e em tudo que viveu. Foram 6 meses longe de seu país, naquele lugar que antes desconhecia e para onde sozinho foi. Em 6 meses, ele fez dessa cidade o seu lar.

Eram 2h45am. Uma mulher chama pelo próximo grupo para visitação. Ao entrar no Grand Palais ficou espantado com a quantidade de gente circulando pelas salas da exposição. Era uma realidade muito diferente da dele. Em sua cidade natal, um museu jamais estaria lotado de madrugada, nem que Picasso próprio estivesse vivo e ao vivo pintando e distribuindo pinturas.
Ao passar de sala em sala, sua atenção é desviada dos quadros nas paredes para o centro dos salões. Ele começou a observar quem era aquela gente que deixa o calor da cama para enfrentar os corredores frios do museu. Uma menina japonesa com roupas muito coloridas estava em pé diante de um quadro. Ao seu lado, um menino meio gótico – vestindo somente preto e com os olhos pintados – observava a mesma pintura. Ambos portavam fones de ouvidos, fechados em seu próprio mundo, e por isso não ouviam o grupo de jovens visivelmente bêbados que estava próximo. Era claro que o grupo havia emendado uma noitada com aquela exposição. Eles riam e tentavam não falar alto. O casal de velhinhos parecia não se importar com o barulho. Eles dividiam, em silêncio, um banco em frente ao “Le Dejeuner Sur l´Herbe d´Aprés Manet” – um dos destaques daquela grande mostra. Por fim, ele viu uma mãe e uma filha de mãos dadas vestindo pantufas e roupões idênticos (que, imaginou ele, escondiam pijamas). A mãe cochichava ao ouvido da menina conforme elas iam passando de quadro em quadro, e a menina sorria.

Eram quase 4 da manhã. Ele pensava em todas as coisas lindas que acabara de ver quando chegou ao exterior do prédio e, surpresa: nevava! Naquela cidade, a neve caia raramente e em poucas horas derretia. Era muita sorte conseguir ver as ruas cobertas de branco.
Apesar do frio, ele decidiu que iria caminhando para casa. Atravessou a Pont Alexandre III para a outra margem e foi contornando o rio até o apartamento que morava no 16éme. As ruas estavam desertas tendo o silêncio quebrado apenas por alguns táxis que de vez em quando passavam. Não se via uma alma.
Em pouco tempo deparou-se com a Torre. Ele nunca gostou muito dela. Por ser muito turística e estar sempre abarrotada de gente, ele dizia que ela havia perdido o encanto. Mas, naquela noite, ao ver os “campos de marte” vazios e cobertos de neve, ele entendeu porque a Torre representa a cidade. Ali, sozinho aos pés dela, era como se a cidade falasse para ele. Ela dizia adieu.

Ele perdeu a hora. Baixinho, respondeu: “merci!”.

Se você tiver a sorte de viver em Paris enquanto jovem, então, onde quer que você vá, para o resto da sua vida, ela fica com você.”
Ernest Hemingway

* texto inspirado no livro “Paris é Uma Festa” de Ernest Hemingway


Essa semana quebrei a cabeça para achar um presente legal para um amigo que está se formando em Direito. Queria dar uma lembrança que ele gostasse e que de alguma forma se relaciona ao curso que ele conclui. Depois de descobrir que ele curte literatura clássica, lembrei de um livro que tem tudo a ver: “Os Miseráveis“.

Escrito por Victor Hugo, “Les Misérables” conta a trajetória do personagem Jean Valjean: um homem condenado a 14 anos de prisão por roubar um pedaço de pão para alimentar sua família que passava fome. Depois de solto, Valjean (agora sim um criminoso de verdade) passa por um encontro “divino ” – não vou estragar a história – e decide mudar seu rumo e refazer a sua vida. A partir daí, diversos personagens começam a aparecer e suas histórias a entrelaçar.

A trama acontece nos anos seguintes a Revolução Francesa e relata a luta do povo francês em garantir os Direitos Humanos declarados em 1789. Em uma das passagens, o autor – que se interessava por política e acontecimentos históricos – faz uma descrição fiel da Batalha de Waterloo que derrubou Napoleão. Aliás, diversas partes descritas no livro acontecem em lugares que realmente existiram e ainda existem em Paris.

O título, “Os Miseráveis”, é uma referência aos personagens que compõem a obra. Miseráveis esses não por serem pobres de propriedades, mas pobres de espírito. Victor Hugo sabe como ninguém dissecar os atores de suas obras e expor-lhes todas as características. O jovem Gavroche, por exemplo, é uma personificação da cidade de Paris nos anos em que a história acontece.

A narrativa é apaixonante e em nada chata como as adaptações para o cinema e o teatro musical – estes sim, medíocres e não empolgantes como o original de Victor Hugo.

A obra fala de justiça, de caráter, de leis, de acontecimentos históricos e de virtudes e valores que devem ser inerentes a todo advogado e a qualquer ser humano. Espero que o formando em Direito tenha gostado da lembrança.

 

Ser bom é fácil. O difícil é ser justo.”
                                            Victor Hugo

 


Há quase um ano, passeando com uma amiga, um livro me chamou a atenção. A ficção era de Muriel Barbery, escritora francesa, e foi escrita em 2006. O título: “A Elegância do Ouriço”! Achei tão bonito que foi o suficiente para me convencer a comprá-lo.

A historia é narrada através de 3 diários. O primeiro deles são os desabafos da senhora Renée Michel, zeladora de um prédio de luxo em Paris. Nele, Renée descreve seu dia-a-dia no número 7 da Rue de Grenelle e a exaustão em camuflar sua inteligência para alimentar o estereótipo de empregada ignorante e ranzinza que seus patrões possuem. Já os outros dois diários são escritos por Paloma Josse, filha de um senador que reside no prédio em que a Sra. Michel trabalha. A menina repudia o estilo de vida da família e, sem ver sentido na sua própria existência,  decide suicidar-se no seu aniversário de 13 anos. Nos diários, ela escreve a procura de motivos para viver: em um, a procura é feita nos pensamentos; no outro, a procura é nos movimentos. Apesar de vidas completamente diferentes, Renée e Paloma compartilham muitas opiniões e o desejo de viverem isoladas e no anonimato.

A trama corre devagar. O livro é filosófico e trás idéias parecidas com a conhecida Alegoria da Caverna de Platão. Na Alegoria, pessoas acorrentadas a uma caverna escura somente vêem as sombras do mundo externo e acreditam que aquilo é o mundo real. Assim como Platão, a autora francesa faz um paralelo entre aquilo que vemos e temos como verdadeiro, e a real verdade que muitas vezes escolhemos não ver.

O livro é uma crítica a sociedade e nos faz refletir sobre os pequenos prazeres da vida e as verdades das coisas.

E afinal, como o bonito título se relaciona com tudo isso? Um dos trechos explica ao descrever a personagem da zeladora Renée Michel.

A Sra. Michel tem a elegância do ouriço: por fora, crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza, mas tenho a intuição de que dentro é tão simplesmente requintada como os ouriços, que são uns bichinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes.”

A Elegância do Ouriço” é um livro de outono, um dos meus favoritos, e que recomendo aos amigos.