20h. O espetáculo já estava atrasado. Enquanto algumas pessoas ainda procuravam seus lugares, eu refletia em duas coisas: que a platéia estava praticamente vazia e que eu era o único sozinho, desprovido de companhia.

Sempre gostei de teatro! Tem alguma coisa mágica que acontece quando os três sinais tocam e as luzes se apagam. E é por isso que vou mesmo sem parceria! Acho triste ver um espetáculo como o de ontem – premiadíssimo e de nível internacional – com poucos ingressos vendidos (mesmo ao preço popular de R$ 20,00).

Esperando pelo início da peça, uma mulher se aproxima de mim e, pedindo passagem, indica com o dedo que seu assento é ao meu lado. Levanto para ela passar, volto a sentar e noto algo curioso: a mulher abaixava a poltrona retrátil e se mostrava frustrada quando, ao tirar a mão do assento, a poltrona voltava a se fechar. Ela repetiu isso por três vezes, quando eu me intrometi e disse que ela precisava sentar para a poltrona permanecer aberta. Rindo, ela me disse: “já ouviu falar de marinheira de primeira viagem? Então…”.

Ao meu lado, por força do destino, estava uma pessoa – também desacompanhada – que vinha pela primeira vez ao teatro. Em pouco tempo de conversa ela me contou que morava em Curitibanos – segundo ela: “uma cidade que começa com cú” – e que estava em Florianópolis para um congresso. Falou que tentou convencer os amigos congressistas a lhe acompanharem no programa, mas que todos negaram o convite. Sobre isso ela só tinha a dizer: “pessoal de cabeça fechada, sabe?”. Não tive tempo de perguntar seu nome, pois o espetáculo começava.

Durante 85 minutos pude acompanhar a reação da “marinheira” de Curitibanos com o que ela via no palco. Ela riu, chorou e até soltou um gritinho (quando um ator apareceu em nú frontal). Ao fim da peça, virei para ela e – ainda sem saber seu nome – perguntei se valeu à pena. Ela disse: “To segurando o meu queixo! Agora venho sempre que puder”.

Com isso tive a certeza que devo continuar a aproveitar as coisas que dou valor, mesmo que para isso tenha que fazer um programa sozinho. Vou metendo a cara, experimentando, descobrindo o que gosto e que não gosto, e vendo coisas lindas como o espetáculo de ontem.

A peça que assisti, “Fragmentos do Desejo”,  utiliza a técnica de teatro gestual (sem falas) e discorre sobre as diferenças do ser humano, narrando a história de 4 personagens que se entrelaçam. Selecionado pelo Programa Petrobrás, o espetáculo foi eleito um dos 10 melhores de 2010. Hoje ainda têm espetáculo às 20h no TAC. Você, marinheiro, pegue o seu barquinho e vá lá conferir.

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