Na segunda metade dos anos 50, em Santo Amaro, eram muitos poucos os meninos e meninas que se sentiam fascinados pela vida americana da era do rock’n’roll e tentavam imitar suas aparências. Rapazes de jeans e botas, moças de rabo-de-cavalo e chiclete na boca eram tipos conhecidos nossos. Mas não apenas eles eram minoritários: eles me pareciam um modelo pouco atraente porque embora fossem exóticos eram medíocres. Não quero dizer que se tratava de uma turma à qual eu não pertencia e com que eu mantinha uma relação de hostilidade mútua. Não. Aquilo era mais como que uma tendência que se manifestava de forma muitas vezes acanhada em poucos dos meus conhecidos – e decididamente não entre os mais inteligentes ou os de personalidade mais interessante. Mas isso não me levava a nada além de partilhar com os santamarenses razoáveis uma atitude crítica condescendente em relação ao que naqueles garotos parecia tão obviamente inautêntico. Não era a inautenticidade cultural que criticávamos neles, uma alienação das raízes regionais ou nacionais – não lidávamos com tais noções, embora uma forma branda e ingênua de nacionalismo não nos fosse totalmente estranha; o que se critivaca nesses meninos era a inautenticidade psicológica visível em seus esforços de copiar um estilo que os deslumbrava mas cujo desenvolvimento eles não sabiam acompanhar. Ríamos deles, como se percebêssemos que atuavam como canastrões.
 

Caetano Veloso, em “Verdade Tropical“, sobre os jovens da contracultura de antigamente na cidade pequena onde nasceu.

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